Pressão, revanche e fé: xavantes relembram vitória sobre o Fla em 1985

24/02/2015 00h00 - Atualizado há 4 anos

Há 30 anos, o Brasil de Pelotas traçava objetivos para um importante confronto pelo Campeonato Brasileiro de 1985. Mesmo que houvesse discrepância técnica entre as equipes, o objetivo era vencer na base da vontade, acreditando na força do conjunto. Entre as tarefas, era necessário estudar todos os detalhes de um rival repleto de estrelas e conhecido por todos. O adversário era o grande Flamengo de nada menos que Zico, Andrade, Adílio, Bebeto e Leandro. Que não foram obstáculos para os xavantes no Bento Freitas. A torcida apaixonada comemorou o placar de 2 a 0. Feito que, em 2015, a equipe gaúcha espera repetir. Agora pela Copa do Brasil, e contra um Rubro-Negro sem aquela mesma pompa, mas não menos difícil de ser enfrentado. Em partida marcada para a próxima quarta-feira, os comandados de Rogério Zimmermann buscarão novo triunfo. A intenção é voltar aos holofotes.

Atualmente, o Brasil-Pel tem como uma de suas principais marcas a experiência. A média de idade da equipe que entrou em campo no empate em 1 a 1 com o Lajeadense no Gauchão é de 31,09 anos. Dos 11 titulares, sete têm mais de 30 anos. Entretanto, muitos deles nem sabiam da existência do confronto entre os rubro-negros.

Mas basta perguntar para qualquer um ex-jogador do Xavante que esteve presente naquele jogo de 1985 para as lembranças surgirem. O embate não era um mata-mata, como será o da Copa do Brasil. Naquele ano, a partida valia pela segunda fase do Grupo F do Brasileiro.

Um dos antigos jogadores é Hélio. Hoje técnico, o ex-defensor passou a usar Vieira em sua alcunha. À época, o menino de 21 anos era mais um que batalhava por espaço. Ele conta com riqueza de detalhes o feito do Brasil de Pelotas, sem esconder seu orgulho:

- Foi uma quarta de frio e chuva. O estádio tinha umas 23 mil pessoas. Na chegada, o Flamengo já sentiu a pressão da torcida. O ônibus deles foi sacudido. Eles tinham um grande elenco, um dos melhores do Brasil. Nós saímos ganhando após uma trapalhada do Leandro. Houve uma indecisão entre o Mozer e o Fillol, o Bira entrou e fez o gol. No fim, o Júnior Brasília foi cruzar, mas pegou errado na bola e encobriu o Fillol. O jogo foi muito parelho, pegado. Aquele time do Flamengo era uma seleção.

A qualidade dos cariocas não assustou a equipe xavante. Até pelo fato de, uma semana antes, terem se enfrentado. Na ocasião, o Flamengo venceu por 1 a 0, com gol de Bebeto de pênalti. Além disso, um ano antes, os gaúchos já haviam conquistado a vitória sobre o mesmo rival - também por 1 a 0, gol de Chico Fraga -, o que solidificou a confiança em ter um bom resultado:

- Ninguém acreditava que pudéssemos nos classificar. Acho que só nós. Esse jogo encaminhou a vaga. Nós ganhamos do Flamengo no ano anterior. No Maracanã, perdemos por 1 a 0, mas não merecíamos. O pênalti foi até comigo. Um lance com o Bebeto, que driblou o cruzou. Dei um carrinho e a bola ficou presa nas minhas costas, mas marcaram pênalti. Nós não digerimos aquela derrota, que serviu como um fator motivacional - admite Hélio.

Além da inconformidade com o resultado, a estratégia foi estabelecida. Como o Flamengo se destacava, Valmir Louruz, o técnico da época, pôde dissecar os comandados de Zagallo com o grupo (assista ao vídeo da entrevista acima). E, para sair com o resultado, uma ideia nem tão óbvia: nada de marcação especial sobre Zico, a grande estrela:

- Não adiantavam ficar em cima do Zico e dar espaço para a resposta. Cansávamos de ver o Flamengo jogar e entramos com essa ideia - diz o ex-zagueiro.

Condutor da equipe, Louruz também se infla ao relembrar o episódio. O técnico garante que a vontade dentro do vestiário foi fator determinante para o resultado positivo. Ele cita o caráter do grupo como um dos pontos fundamentais para a conquista.

- Aquela vitória foi um dos marcos da minha carreira. Não esqueço. Joguei e sofri com aqueles caras. Eles assimilaram tudo o que passei. A estrela pode até brilhar, mas sem o apoio de todos os companheiros as coisas boas não acontecem. Meu time era formado por jogadores de excelente caráter. Por isso deu certo e vibro até hoje.

Após o sucesso em 1985, o Brasil de Pelotas não conseguiu manter o mesmo nível. Entre os anos 90 e 2000, oscilou, inclusive, entre a elite do futebol gaúcho e a divisão de acesso. Em 2009, passou pelo momento mais triste de sua história. No dia 15 de janeiro, o ônibus da delegação, que retornava de Santa Cruz, tombou próximo ao município de Canguçu. O acidente custou as vidas do preparador de goleiros Giovani Guimarães; do zagueiro Régis e do atacante Cláudio Milar (relembre aqui). O time até disputou o Gauchão, mas acabou rebaixado.

Só voltou em 2014. E em grande estilo. O técnico Rogério Zimmermann já estava no time e levou o título do interior do estado, além de colocar o Brasil na Série C do Brasileirão. Neste processo de reestruturação, o objetivo agora é fazer história novamente e superar o time de Vanderlei Luxemburgo. A dupla promete estar na torcida pelo time gaúcho:

- Eu pretendo assistir. Vou torcer pelo Brasil, claro. É um começo desafiador, mas é a volta dos grandes jogos. Tomara que a coincidência dos 30 anos ajude com mais uma vitória - diz Hélio.

- Eu criei esse carinho com o Brasil. Sempre quando vou a Pelotas sou muito bem acolhido. Não tem como não torcer. Espero que consigamos outra vitória - completa Louruz.

A partida começa às 22h de quarta no Bento Freitas. O jogo de volta está previsto para ocorrer no dia 18 de março no Maracanã, no mesmo horário.

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