Campanha de Lula vai ao TSE e pede cassação da chapa de Flávio Bolsonaro

24/09/2026 05h22 - Atualizado há 20 horas

O Partido dos Trabalhadores pediu que o tribunal apure se agentes e estruturas dos EUA atuaram para influenciar a eleição presidencial de 2026 em benefício do presidenciável da extrema direita

Cb image default
Crédito: Ricardo Stuckert/PR I Reprodução/YT

A coligação Brasil Pronto pra Mais, que apoia a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pediu nesta quarta-feira (23) ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a abertura de uma investigação com o objetivo de apurar se agentes e estruturas dos Estados Unidos atuaram para influenciar a eleição presidencial de 2026 em benefício de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O PT pediu a cassação do registro da chapa do presidenciável da extrema direita, que tem Alfredo Gaspar (PL-RN) como vice.

A equipe de Lula, que também acionou o Supremo Tribunal Federal, incluiu o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) na ação apresentada no TSE. Segundo a campanha do petista, o conjunto de fatos pode configurar abuso dos poderes político e econômico, e uso indevido dos meios de comunicação.

O TSE já validou as chapas de Lula e Flávio Bolsonaro, e a Câmara ainda registra Eduardo como filiado ao PL de São Paulo e fora do exercício do mandato em 2026.

A Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) pede a cassação dos registros ou diplomas de Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar. Outro pedido foi a declaração de inelegibilidade dos irmãos Bolsonaro por oito anos.

Entre as medidas solicitadas também estão depoimentos, requisição de documentos ao Itamaraty, Senado, Câmara e Polícia Federal, informações de plataformas digitais e, posteriormente, a quebra de sigilos bancário e fiscal dos envolvidos.

A AIJE chegou ao TSE em 23 de setembro e tem o ministro Ricardo Villas Bôas Cueva como relator. A AIJE tem nº 0602222-72.2026.6.00.0000.

Ação aponta três frentes de atuação

A coligação organiza a acusação em três frentes: comunicacional, institucional e diplomática. Segundo a peça, essas áreas formariam uma estrutura destinada a transportar para o exterior e devolver ao debate brasileiro narrativas sobre liberdade de expressão, perseguição política e confiabilidade do sistema eletrônico de votação. A campanha de Lula apresenta essa interpretação como fundamento para o pedido de investigação, e o TSE ainda precisa examinar as acusações.

O documento sustenta que essa atuação teria alcançado outro patamar a partir de julho de 2025. A coligação afirma que Flávio Bolsonaro e Eduardo mantiveram interlocuções com integrantes do governo do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sem participação dos canais diplomáticos oficiais brasileiros, e tenta vincular parte dessas agendas a medidas posteriormente adotadas por Washington.

A petição também afirma que Itamaraty, Câmara e Senado não concederam credenciamento ou instruções para que os irmãos Bolsonaro conduzissem negociações em nome do Estado brasileiro.

O texto ainda pede que o TSE investigue se estruturas parlamentares, servidores, passagens ou verbas públicas contribuíram para deslocamentos e compromissos relacionados às articulações descritas na ação.

Petição cita tarifas, sanções e medidas diplomáticas

Entre os episódios que sustentam a argumentação, a coligação reúne tarifas aplicadas a produtos brasileiros, sanções contra autoridades, restrições de vistos e reuniões de integrantes do campo político de Flávio Bolsonaro com representantes dos EUA.

A peça afirma que essas medidas produziram impactos econômicos e políticos no Brasil e sustenta que a campanha adversária teria procurado transformar seus efeitos em argumento eleitoral contra o governo Lula.

O documento cita ainda reuniões realizadas em 2026 com representantes norte-americanos, discussões sobre novas tarifas, encontros relacionados à segurança pública, agendas com influenciadores e iniciativas que envolveram questionamentos sobre as urnas eletrônicas.

A própria ação estabelece uma ressalva sobre esse ponto. A coligação afirma expressamente que não atribui a Flávio Bolsonaro, Eduardo ou Gaspar a autoria dos atos praticados pelo governo dos EUA, que representam decisões de outro Estado. A tese jurídica concentra-se na alegação de que integrantes do grupo político teriam utilizado acesso a autoridades estrangeiras para defender determinadas medidas e, depois, explorado seus efeitos no debate eleitoral brasileiro.

Essa distinção ocupa lugar central na argumentação: a campanha de Lula não pede ao TSE que trate decisões de Washington como atos praticados pelos candidatos, mas que apure a existência de coordenação, provocação, financiamento, prestação de serviços ou aproveitamento eleitoral ligado às articulações descritas.

Discurso de Flávio Bolsonaro nos EUA entra na ação

A petição também usa manifestações públicas de Flávio Bolsonaro para sustentar o pedido de apuração. Um dos episódios ocorreu durante a Conservative Political Action Conference (CPAC), no Texas, em 28 de março de 2026.

Segundo o documento, o senador pediu que autoridades estadunidenses “apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente” e afirmou que as eleições brasileiras deveriam ser “baseadas em valores de origem americana”.

Rockbridge entra no foco da investigação

Outro eixo da AIJE envolve a Rockbridge Network, rede norte-americana que passou a aparecer em reportagens e acusações sobre possíveis vínculos com integrantes da campanha de Flávio.

A petição pede que o TSE investigue a origem de eventuais recursos, serviços ou estruturas colocados à disposição da candidatura e examine as conexões entre integrantes da Rockbridge e pessoas que atuaram no entorno eleitoral do candidato do PL.

O tema já havia levado o PT ao Supremo Tribunal Federal em outra iniciativa. Na ocasião, a CNN informou que a legenda pediu apuração sobre possível custeio estrangeiro relacionado à campanha de Flávio e citou a Rockbridge, organização associada ao atual vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance.

A legislação eleitoral proíbe que partidos e candidatos recebam direta ou indiretamente doações em dinheiro ou estimáveis em dinheiro provenientes de entidade ou governo estrangeiro. A regra também abrange publicidade, segundo o artigo 24 da Lei das Eleições.

A existência de contatos ou relações políticas, por si só, não comprova financiamento eleitoral estrangeiro. A AIJE busca justamente produzir provas para esclarecer se houve repasse de recursos, prestação de serviços ou outra forma de contribuição com valor econômico.

Pedro Sang, empresário citado nas reportagens que antecederam a ação, contestou parte das informações sobre sua relação com a Rockbridge. À CNN, ele afirmou que nunca se tornou membro da organização nem exerceu papel formal de representação e disse que a iniciativa de aproximação não avançou.

Reportagens publicadas em setembro apontaram a presença de Sang na estrutura ligada ao comitê de Flávio em São Paulo. As publicações também registraram sua negativa de financiamento da candidatura pela Rockbridge.

Terras raras também aparecem na petição

A AIJE ainda relaciona a discussão sobre a Rockbridge a um memorando sobre minerais críticos e terras raras preparado por André Marinho, candidato ao governo do Rio de Janeiro pelo Novo.

Segundo a petição, o material, redigido em inglês, apresentava diretrizes para uma eventual cooperação entre Brasil e Estados Unidos na exploração desses recursos em um governo de Flávio. O documento também cita uma viagem de Marinho aos Estados Unidos e encontro com J.D. Vance.

A coligação usa esses elementos para pedir que o TSE aprofunde a apuração sobre a natureza das relações políticas e econômicas entre integrantes desse circuito e pessoas ligadas à candidatura do PL. A existência de encontros, documentos ou contatos não demonstra, isoladamente, financiamento eleitoral externo.

Campanha quer rastrear recursos e estruturas

Para Angelo Ferraro, coordenador jurídico da campanha de Lula, a investigação precisa esclarecer a origem de recursos e o eventual papel de agentes estrangeiros.

“O que estamos pedindo é que os fatos sejam esclarecidos, especialmente quanto à origem dos recursos, à atuação de agentes estrangeiros e a eventuais benefícios eleitorais. Uma eleição soberana exige transparência sobre quem está financiando e promovendo ações destinadas a influenciar o eleitor brasileiro”, avalia.

A coligação pede depoimentos e solicita que o TSE requisite documentos ao Ministério das Relações Exteriores, ao Senado, à Câmara dos Deputados e à Polícia Federal. Também requer informações de plataformas digitais para verificar alcance, impulsionamento e outros elementos relacionados às publicações que integram a narrativa da ação.

Os advogados querem que o Itamaraty informe se concedeu alguma autorização para Flávio ou Eduardo representarem o país em tratativas com autoridades estrangeiras. A petição também pretende obter dados sobre viagens e estruturas públicas eventualmente empregadas nas agendas descritas no processo.

Em uma etapa posterior, a coligação pede que o TSE avalie a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos envolvidos caso as diligências produzam elementos que indiquem movimentação financeira ligada aos fatos investigados.

Agressões à soberania brasileira

Em 2026, os EUA elevaram a pressão econômica sobre o Brasil com duas novas sobretaxas. A primeira acrescentou 25% a determinados produtos brasileiros, enquanto a segunda estabeleceu tarifa adicional de 12,5% para parte das exportações do país, dentro de uma medida que alcançou dezenas de economias.

Washington também incluiu o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras. A classificação ampliou os instrumentos jurídicos disponíveis aos Estados Unidos para aplicar restrições financeiras contra pessoas e empresas relacionadas às duas facções. O governo brasileiro passou a tratar esse conjunto de iniciativas — das tarifas à designação das organizações criminosas — como parte de uma agenda de pressão externa sobre o país.

A escalada nas relações bilaterais ocorreu após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no processo sobre a tentativa de golpe de Estado. A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) fixou pena de 27 anos e três meses de prisão para Bolsonaro, apontado pelo colegiado como líder da organização envolvida na trama.

Na leitura do governo brasileiro, as tensões com Washington também se inserem em uma disputa mais ampla sobre a posição internacional do Brasil. A política externa de Lula aprofundou relações com a China, ampliou a atuação no BRICS e reforçou a aproximação com países do Sul Global, movimentos associados à busca por maior autonomia nas relações econômicas e diplomáticas internacionais.

Leonardo Lucena

BRASIL 247