Celular de Vorcaro tem 110 registros de contato com Flávio Bolsonaro, aponta PF
Ao longo de onze meses, parlamentar marcou encontros, apresentou aliados e cobrou o ex-banqueiro por dólares prometidos para o filme Dark Horse
A Polícia Federal extraiu, em 18 de novembro de 2025, do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro um conjunto de conversas que permite reconstituir a relação dele com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República. O material, obtido com exclusividade pela revista Piauí, mostra que os contatos entre os dois se estenderam até a véspera da prisão do dono do Banco Master e que o assunto central era o dinheiro prometido para a cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL).
Em 16 de novembro de 2025, às 15h46, Flávio escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”. Segundo a revista, ele se referia aos dólares que vinha recebendo de Vorcaro. No dia seguinte, o então banqueiro foi preso.
O que mostram as 110 interações
O histórico entre os dois soma 110 registros: 50 mensagens do senador, 46 do banqueiro e 14 ligações, das quais oito foram atendidas. Entre o que Flávio Bolsonaro enviou, há cinco fotos e vídeos de visualização única, remetidos na semana anterior à prisão, e uma mensagem apagada em 23 de setembro de 2025.
O primeiro contato foi uma ligação às 22h10 de 16 de dezembro de 2024, por iniciativa do senador. Depois dela, Flávio acionou o recurso de mensagens temporárias, que apaga o conteúdo após 90 dias. Por isso, a conversa direta só é visível a partir de agosto de 2025, e o intervalo entre 16 de dezembro de 2024 e 17 de agosto de 2025 aparece em branco. Foi nessa janela que Vorcaro depositou US$ 10,6 milhões, com a justificativa de patrocinar o filme, citado nas conversas apenas como “o filme”.
Segundo a Piauí, o tom é de camaradagem: as expressões “irmão”, “irmãozão” e “mermão” aparecem 16 vezes. A revista avalia, porém, que a relação se concentrava em interesses mútuos. Para o banqueiro, tratava-se de garantir influência junto à família Bolsonaro. Para o senador, de obter o dinheiro, com cobranças insistentes pela liberação dos dólares atrasados.
Cobranças por parcelas atrasadas
Em 8 de setembro de 2025, Flávio Bolsonaro enviou a Vorcaro um áudio, antes revelado pelo site The Intercept Brasil, no qual pedia uma posição sobre os pagamentos. Disse que havia “muita parcela pra trás” e que todos estavam tensos. Afirmou que um calote em nomes como o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh “ia ser muito ruim” e que, sem honrar os compromissos, “a gente perde tudo”. Vorcaro respondeu pedindo desculpas pela semana difícil, em que o Banco Central vetou a compra do Master pelo BRB, e prometeu: “Eu vou resolver amanhã”.
A pressão surtiu efeito em 16 de setembro, quando a Entre Investimentos fez a sétima e última remessa conhecida ao fundo Havengate, de US$ 1,67 milhão. No total, foram US$ 12,3 milhões, valor confirmado pelo doleiro Antônio Freixo Júnior em delação homologada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Em 22 de outubro, Flávio voltou à carga: “Já estamos no terceiro dia de gravação. Estamos no limite.” Minutos depois, acrescentou: “Mais uma vez, com toda a liberdade que temos, se não der me fala que procuro urgente outro caminho.” Vorcaro respondeu: “Deixa comigo irmão, vou ver agora”. Em seguida, escreveu ao intermediário Thiago Miranda: “Liberei mais uma hoje”.
A parcela, no entanto, não chegou. Em 30 de outubro, Miranda encaminhou ao banqueiro uma mensagem atribuída a Flávio, que perguntava o que havia ocorrido, já que “veio o contrato, mas não veio o depósito”. Vorcaro disse que o pagamento “voltou”, mas que “na segunda vai de novo”. Miranda seguiu cobrando em 10 e 12 de novembro, e a última mensagem dele foi enviada em 17 de novembro, dia da prisão.
Os dias finais antes da prisão
Nos quatro dias que antecederam a detenção, Flávio fez duas chamadas não atendidas e perguntou, nos dias 13 e 15: “Fala mermão, pode atender?”. Vorcaro disse que retornaria. Depois da mensagem de 16 de novembro, o banqueiro respondeu com uma foto de visualização única, e o senador encerrou a troca com um “Amém!”.
Como a relação começou
A Piauí reconstituiu o período sem registros a partir de conversas de Vorcaro com terceiros: Thiago Miranda, então presidente do Portal Leo Dias; o deputado federal Mário Frias (PL-SP); o cunhado e operador financeiro Fabiano Zettel; e o amigo Flávio Carneiro.
Em 8 de dezembro de 2024, Carneiro avisou o banqueiro sobre um jantar com “meu xará e o pai dele” e opinou: “Acho uma roubada danada.” Miranda confirmou uma reunião com Flávio para 11 de dezembro, às 17h30, na casa de Vorcaro em Brasília. Na noite seguinte à confirmação, o banqueiro pediu a Carneiro: “Não fala dessa reunião bolso pra ninguém!”. E completou: “Esse negócio acaba comigo.”
No dia 11, Flávio se atrasou por causa da votação da reforma tributária no Senado. Frias ligou seis vezes sem resposta, mas, depois de falar com o banqueiro, enviou um áudio de agradecimento, no qual disse que o projeto iria “mexer com o coração de muita gente”. Em 16 de dezembro, às 12h49, Frias avisou que estava “com senador” e iniciou uma chamada de áudio de pouco mais de dois minutos com Vorcaro. A mensagem não nomeia o senador, mas o contexto indica que era Flávio. Naquela noite, veio a primeira ligação direta do parlamentar.
Contrato e mudança na rota do dinheiro
Documentos gerados em 16 de dezembro de 2024 mostram um plano de negócios e uma minuta de financiamento do filme, então chamado “Capitão do Povo”, com investimento de US$ 25 milhões. Um único investidor, identificado como “número 3”, ficaria com 48 das 50 cotas de US$ 500 mil, o equivalente a 96% do orçamento. Pelo contexto, o investidor era Vorcaro.
A Piauí comparou esse documento com uma versão de fevereiro do mesmo ano, editada pela produtora Go Up. A versão anterior dividia as cotas entre três investidores e previa concessão de green card, governança corporativa, relatórios trimestrais e conta de garantia. O texto enviado ao banqueiro eliminou essas regras de controle.
Pela minuta, os US$ 24 milhões seriam depositados na conta de produção da Go Up Entertainment, nos Estados Unidos. Em janeiro de 2025, porém, o destino passou a ser o Havengate, fundo registrado no Texas e administrado pelo advogado Paulo Calixto, amigo do ex-deputado cassado Eduardo Bolsonaro e responsável pelo processo de imigração dele. Os arquivos não registram quem decidiu a troca nem por quê. O contrato entre o Havengate e a Go Up foi assinado em 24 de fevereiro, e Eduardo, então deputado, se licenciou do mandato e se mudou para a região de Dallas três dias depois.
Com isso, Vorcaro deixou de ser formalmente o financiador do filme e passou a ser cotista do fundo. Para os investigadores, é nesse ponto que o negócio deixa de ser cinema. A hipótese em apuração é que parte dos dólares não tenha ido para a produção e que a operação possa ter sido uma simulação de investimento para retirar o dinheiro do Brasil com outros fins. A PF concluiu que Eduardo “orientou” a gestão dos recursos nos Estados Unidos e apura se parte deles custeou a estadia do ex-deputado no país. Os investigadores ainda preparam um pedido de cooperação às autoridades estadunidenses.
Pelas contas apresentadas pela defesa da Go Up, o fundo repassou à produtora 13,39 milhões de dólares, valor superior ao que a Entre Investimentos enviou. A diferença não foi explicada pelos envolvidos.
Encontros e viagens que se cruzam
As conversas registram ao menos seis encontros marcados entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, de uma reunião em Brasília, em dezembro de 2024, a um jantar com Caviezel na casa do banqueiro em São Paulo, em novembro de 2025. O único encontro admitido publicamente pelo senador ocorreu em 4 de dezembro de 2025, depois da prisão, na véspera do anúncio de sua pré-candidatura à Presidência.
Os deslocamentos dos dois também se cruzam. Em 19 de janeiro de 2025, Flávio voou de Fort Lauderdale a Brasília em um jato que o amigo Willer Tomaz divide com Vorcaro. Em maio, os dois pousaram em Fort Lauderdale com 19 minutos de diferença, em aeronaves distintas, e depois voltaram aos Estados Unidos em datas coincidentes: Vorcaro pela Flórida e Flávio por Dallas, cidade do escritório de Calixto. Não há registro de encontro nessas viagens.
Declarações públicas desmentidas
Segundo a Piauí, depois que o escândalo estourou, em maio de 2026, Flávio disse que não conversava com Vorcaro, que não havia dinheiro do Master no Dark Horse e que o último pagamento ao filme ocorrera em maio de 2025. Disse ainda que nunca havia entrado em avião do banqueiro e que a visita feita depois da prisão fora “para botar um ponto final” nos negócios entre eles. A revista afirma que, em todas as ocasiões, ele foi desmentido pelos fatos.
Investigação e silêncio dos envolvidos
A relação entre o senador e o banqueiro está sob investigação desde julho de 2026, por suspeita de crimes financeiros nos repasses ao Havengate e de uso do dinheiro para fins alheios à cinebiografia. A Entre Investimentos, por sua vez, é investigada por suspeita de lavar dinheiro do PCC.
A Piauí questionou Flávio sobre o uso de recursos do Havengate em sua pré-campanha, o assunto da ligação de 16 de dezembro de 2024 e quem decidiu trocar a conta da Go Up pela do fundo. O senador não respondeu. Freixo Júnior disse estar impedido de falar por causa do sigilo de sua delação. As defesas de Frias, Miranda, Calixto, Eduardo Bolsonaro e Vorcaro preferiram não se manifestar.
Redação Brasil 247
