‘Lulazo’: Vitória de Lula vira modelo para oposição argentina derrotar Milei em 2027

02/11/2026 02h07 - Atualizado há 3 horas

Triunfo do presidente sobre Flávio Bolsonaro inspira articulação de uma frente ampla contra o presidente argentino

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Crédito: PR/Reuters

 A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), após uma virada histórica sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições brasileiras, tornou-se uma referência para setores da oposição argentina que buscam derrotar o presidente de extrema direita Javier Milei nas eleições de outubro de 2027. O resultado, apelidado de “Lulazo” pela imprensa de países vizinhos, estimulou iniciativas de mobilização política e discussões sobre a formação de uma frente ampla para enfrentar a extrema direita.

Segundo a Folha de São Paulo, lideranças argentinas interpretam a vitória de Lula não apenas como um fortalecimento das forças progressistas latino-americanas, mas também como uma derrota política de Milei, que participou diretamente da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Integrantes da oposição argentina passaram a estudar as estratégias eleitorais brasileiras, especialmente a mobilização popular, a organização digital e a construção de alianças políticas.

A repercussão foi imediata. Menos de duas horas depois da confirmação matemática da vitória de Lula, apoiadores do peronismo criaram um canal de WhatsApp chamado “Exército do Peronismo”, inspirado na estratégia de comunicação utilizada pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) durante a campanha brasileira. Em apenas uma semana, o núcleo do PT na Argentina recebeu pelo menos dez solicitações de entrevistas e conversas sobre as experiências eleitorais do partido.

Para o deputado argentino Martín Lousteau, da União Cívica Radical, a experiência brasileira demonstra a importância da articulação política e do engajamento popular para enfrentar movimentos de extrema direita.

“A vitória de Lula evidencia a necessidade de organização e de unir esforços, tanto do ponto de vista político quanto tecnológico”, afirmou Lousteau.

“É uma demonstração clara de que uma sociedade mobilizada pode frear —e derrotar— a crueldade de certas vertentes da direita atual, que chegam a desprezar a democracia”, acrescentou.

Apoio a Flávio Bolsonaro transforma resultado em derrota política de Milei

O envolvimento de Javier Milei na disputa presidencial brasileira ampliou o impacto da vitória de Lula sobre a política argentina. O presidente ultraliberal apoiou publicamente Flávio Bolsonaro e chegou a participar do lançamento de sua candidatura, realizado em São Paulo, no final de julho.

Durante o evento, Milei atacou Lula, chamando-o de “lixo socialista”. O episódio agravou as tensões diplomáticas entre os dois países e contribuiu para o rebaixamento das relações bilaterais nas semanas seguintes.

Na avaliação do deputado Gustavo Fernando López, fundador do partido Forja e ex-integrante do governo de Cristina Kirchner, o resultado brasileiro representa um revés significativo para o presidente argentino.

“Assim como o triunfo foi extraordinário, a derrota foi catastrófica”, declarou López.

“O homem que insultava Lula tem um ano de mandato de um governo que vai muito mal, enquanto o presidente brasileiro tem quatro anos de mandato pela frente. Ou seja, hoje, politicamente, Lula está muito acima de Milei hoje”, acrescentou.

O secretário-geral do Partido Comunista da Argentina, Jorge Kreyness, também considera que a participação de Milei na campanha brasileira pode ter prejudicado o candidato do PL.

“Parece que a visita de Milei ao Brasil para ajudar Flávio prejudicou esse candidato. Suas atitudes, seus gestos e suas grosserias, de modo geral, não favoreceram a campanha do PL”, afirmou.

Kreyness avalia que as propostas econômicas associadas ao governo argentino contribuíram para despertar preocupações entre eleitores brasileiros.

“Não sei medir o impacto, mas uma parte do eleitorado brasileiro sentiu medo pelo fechamento de fábricas e pelas privatizações”, disse.

Modelo econômico argentino entrou na campanha brasileira

A política econômica de Javier Milei foi um dos temas explorados durante a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Enquanto aliados do candidato do PL destacavam a desaceleração da inflação argentina, a campanha petista apontava os efeitos sociais das medidas de austeridade e o fechamento de empresas no país vizinho.

Durante um debate presidencial realizado pela Band, Lula questionou diretamente Flávio Bolsonaro sobre a possibilidade de reproduzir no Brasil as políticas econômicas de Milei.

“Eu quero saber se você vai seguir o modelo [da] motosserra do Milei”, afirmou o presidente.

“Você sabe como está a pobreza na Argentina? Você sabe como está o desemprego? Você tem acompanhado a economia? Se não tem, leia, para você nunca mais dizer que vai seguir o Milei”, acrescentou.

Os indicadores argentinos apresentam resultados distintos. A inflação mensal, que chegou a 25,5% em dezembro de 2023, quando Milei assumiu a Presidência, recuou para 1,9% em setembro de 2026.

Por outro lado, o número de empresas no país diminuiu em mais de 30 mil, segundo o Monitor Mensal de Empresas, elaborado pela Fundação Fundar. Trata-se da maior redução registrada em 24 anos, de acordo com o levantamento citado pela Folha.

Oposição argentina busca superar divisões para enfrentar Milei

Apesar da repercussão positiva da vitória de Lula entre partidos oposicionistas, a construção de uma alternativa eleitoral competitiva na Argentina ainda enfrenta obstáculos. O principal deles é a fragmentação das forças contrárias ao governo Milei.

A ex-presidente Cristina Kirchner procura preservar sua influência sobre o peronismo e manter sua base política mobilizada, mesmo cumprindo prisão domiciliar. Paralelamente, o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, e o ex-ministro da Economia Sergio Massa, derrotado por Milei nas eleições presidenciais de 2023, disputam espaço na oposição.

O deputado Gustavo Fernando López considera que a ausência de uma liderança capaz de unificar esses grupos representa um problema maior do que a própria força eleitoral do presidente argentino.

“Há um paradoxo. Milei não consegue a reeleição com os indicadores econômicos que temos hoje. E, ainda assim, na oposição não há ninguém que consiga vencê-lo. Ou seja, estamos travados mais por responsabilidade da oposição do que de Milei”, afirmou.

Para o deputado, a experiência brasileira demonstra que a construção de uma frente ampla, acompanhada de mobilização social e de um programa político definido, pode alterar esse cenário.

“Se fizermos as coisas bem-feitas, se trabalharmos bem, se militarmos bastante, podemos vencer”, declarou.

“A ultradireita pode ser derrotada. É possível derrotá-la com militância, com um programa de governo claro e com o povo nas ruas”, completou.

Popularidade de Milei enfrenta desgaste na Argentina

A tentativa de reorganização da oposição ocorre em meio à deterioração dos índices de aprovação do presidente argentino.

Uma análise publicada pelo jornal argentino Clarín, baseada em 11 pesquisas de opinião, mostrou que 57% dos entrevistados desaprovam o governo Milei. O levantamento também apontou que 57,2% dos argentinos têm uma imagem negativa do presidente.

Além das dificuldades econômicas e políticas internas, a atuação internacional de Milei tem provocado controvérsias. Durante uma viagem à Espanha, em outubro, o argentino atacou o primeiro-ministro Pedro Sánchez, a quem chamou de ladrão e “ditador imprestável”.

Kreyness também criticou a política externa do governo, especialmente a proximidade com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

“Com exceção de Binyamin Netanyahu e Donald Trump, a política exterior de Milei é desastrosa”, afirmou.

Fuga de Flávio Bolsonaro amplia tensão entre Brasil e Argentina

As divergências entre Lula e Milei continuaram após o encerramento das eleições brasileiras. O governo argentino foi o único da América Latina a não reconhecer expressamente a vitória do presidente brasileiro.

Questionado por jornalistas sobre o resultado, o porta-voz argentino Adrian Ravier limitou-se a declarar: “Tomou-se nota do resultado eleitoral no Brasil”.

A crise ganhou novos contornos após a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, na madrugada de quarta-feira (28). Desde o dia anterior, informações sobre uma possível passagem do senador pela Argentina, antes de seguir para Miami, levaram parlamentares oposicionistas a apresentar iniciativas legislativas e judiciais para investigar o eventual envolvimento do governo Milei no deslocamento.

A suspeita acrescentou um novo elemento às tensões diplomáticas e reforçou as críticas de adversários argentinos à proximidade do presidente com o bolsonarismo.

Vitória de Lula anima esquerda em meio ao avanço da direita na América Latina

O resultado das eleições brasileiras também ganhou importância diante das recentes mudanças no cenário político latino-americano.

A vitória de Abelardo de la Espriella na Colômbia e de Keiko Fujimori no Peru consolidou uma sequência de triunfos de candidatos de direita na região, movimento que passou a ser chamado de “onda azul”.

Nesse contexto, Brasil, México e Uruguai figuram entre as principais exceções ao predomínio regional de governos situados entre a centro-direita e o ultraliberalismo.

Para Jorge Kreyness, a vitória brasileira pode representar uma inflexão nessa tendência.

“É um alento para as forças progressistas do nosso país”, afirmou o dirigente comunista.

“Acho que pode marcar uma mudança de tendência, vínhamos de uma onda em que a direita estava ganhando quase todas as eleições na região”, acrescentou.

A eleição presidencial argentina está marcada para outubro de 2027. Até lá, a capacidade da oposição de superar disputas internas, ampliar sua organização territorial e construir uma candidatura de consenso será decisiva para transformar a inspiração provocada pelo “Lulazo” em uma alternativa eleitoral ao governo de Javier Milei.

Otávio Rosso

BRASIL 247