PF identifica Flávio Bolsonaro como “usuário master” de conta de offshore ligada a jato usado por Vorcaro
Relatório policial aponta acesso privilegiado do candidato do PL a conta de empresa que detinha um terço de aeronave ligada ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro
O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparece como “usuário master” de uma conta bancária da Alcazar Holdings, empresa offshore sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, que detinha um terço de um jato executivo ligado ao empresário Daniel Vorcaro. A informação consta de documentos analisados pela Polícia Federal e foi revelada pela jornalista Malu Gaspar, em reportagem publicada pelo jornal O Globo.
A descoberta levanta questionamentos sobre a natureza das relações financeiras entre Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz, administrador da holding. Segundo a Polícia Federal, a condição de “usuário master” conferia ao senador “nível elevado de acesso e gerenciamento” e “acesso operacional relevante” à conta bancária. Os investigadores consideram que essa informação sustenta a hipótese de uma eventual participação econômica ou societária de fato de Flávio na empresa, embora tal vínculo não tenha sido comprovado.
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam a existência de qualquer relação financeira ou societária entre eles. Ambos sustentam que mantêm apenas uma relação de amizade.
E-mails obtidos pela PF revelam referência a Flávio em conta de offshore
A informação sobre o acesso bancário foi identificada em uma troca de mensagens eletrônicas entre o Santander e Fayla Menezes, secretária de Willer Tomaz.
Os e-mails foram obtidos pela Polícia Federal a partir de dados armazenados no iCloud do advogado.
Em 22 de maio de 2025, Fayla solicitou ao banco a inclusão de um novo usuário no perfil master da conta da Alcazar Holdings e a desvinculação de duas contas, uma delas identificada com o nome de Flávio Bolsonaro.
O Santander respondeu que as contas mencionadas haviam sido excluídas do contrato.
Para os investigadores, a documentação é relevante porque sugere a existência de acesso operacional do senador a uma estrutura bancária vinculada à offshore.
A defesa de Flávio, entretanto, argumenta que a própria solicitação de desvinculação demonstra que qualquer associação existente era indevida.
Offshore detinha um terço de jato utilizado por Flávio Bolsonaro
A Alcazar Holdings possuía 33,33% da Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., empresa proprietária de um jato Embraer Legacy 650.
As demais participações pertenciam, naquele período, ao empresário Laerte Cosentino, fundador da Totvs, e à Prime You, empresa que tinha Daniel Vorcaro entre seus sócios.
Em janeiro de 2025, Flávio Bolsonaro utilizou a aeronave em uma viagem de Brasília a Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, acompanhado por Willer Tomaz.
A viagem foi revelada anteriormente pela revista piauí. Na ocasião, o senador afirmou que havia sido convidado pelo advogado, de quem é amigo.
Tomaz declarou que desconhecia a participação da Prime You na propriedade da aeronave e também sua ligação com Vorcaro.
A Polícia Federal considera que a estrutura societária do avião merece atenção na investigação das relações entre as empresas e seus participantes.
“Assim, eventual vínculo societário ou de gestão mantido com a Alcazar Holdings também pode assumir importância para a compreensão das relações indiretas com a Fraction 024, especialmente diante da participação de um terço do capital social dessa empresa”, registra o relatório policial.
A referência a Vorcaro decorre da participação societária da Prime You na empresa proprietária da aeronave, não constituindo, por si só, prova de vínculo financeiro direto entre o ex-banqueiro e Flávio Bolsonaro.
Viagens de lazer e passagens aéreas também são examinadas
A investigação da Polícia Federal identificou outros episódios envolvendo viagens de Flávio Bolsonaro, seus familiares e Willer Tomaz.
Em março de 2025, o grupo participou de um safári na África do Sul, em viagem que também contou com a presença do senador Weverton Rocha (PDT-MA), conforme informações anteriormente divulgadas pelo Globo.
Documentos analisados pelos investigadores indicam ainda que a Cathedral Holding, outra empresa ligada a Tomaz, teria atuado como intermediária na compra de passagens aéreas para Flávio e familiares.
Segundo o relatório, a empresa poderia ter sido utilizada para “custear ou operacionalizar deslocamentos de caráter pessoal”.
Tomaz afirma que as viagens ocorreram entre famílias amigas e que os convidados não ofereceram qualquer pagamento ou contrapartida.
PF identifica conversas por aplicativo de mensagens que se autodestroem
Outro elemento mencionado na reportagem de Malu Gaspar é a utilização do aplicativo Confide nas comunicações entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz.
A Polícia Federal encontrou no celular do advogado registros de conversas com o senador por meio da plataforma, que oferece criptografia e mensagens que se autodestroem.
O número de Flávio aparecia entre os contatos favoritos de Tomaz.
O uso do aplicativo não constitui, isoladamente, evidência de irregularidade. Os investigadores, contudo, registraram essa forma de comunicação no conjunto de informações examinadas sobre as relações entre os dois.
Flávio e advogado negam vínculos financeiros
Procurada pelo Globo, a assessoria de Flávio Bolsonaro contestou a interpretação dos documentos.
O senador afirmou que “nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas”.
Sua defesa também argumentou que a troca de e-mails demonstra a existência de uma vinculação indevida, posteriormente corrigida mediante solicitação ao banco.
Willer Tomaz apresentou contestação semelhante.
“O e-mail enviado ao Santander não demonstra o contrário. Extrair desse documento uma ‘eventual participação econômica ou societária’ é ilação”, declarou.
O advogado afirmou que sua relação com Flávio Bolsonaro é exclusivamente de amizade e negou a existência de negócios conjuntos.
Flávio também criticou a divulgação das informações durante a campanha presidencial, classificou como falsas as alegações sobre uma suposta conta compartilhada e ameaçou responsabilizar judicialmente os autores de eventuais notícias falsas.
Tomaz, por sua vez, afirmou que os documentos teriam sido obtidos por meio de um vazamento criminoso de dados de seu celular e de sua conta no iCloud. Segundo ele, a divulgação das informações durante o período eleitoral teria o objetivo de interferir na disputa presidencial.
Revelações ampliam questionamentos sobre relações do candidato
As informações publicadas por Malu Gaspar acrescentam novos elementos ao debate sobre as relações de Flávio Bolsonaro com Willer Tomaz e as estruturas empresariais ligadas à aeronave utilizada pelo senador.
O aspecto central da descoberta é a referência ao candidato como usuário com acesso privilegiado a uma conta bancária de empresa offshore, circunstância considerada relevante pela Polícia Federal para investigar a eventual existência de vínculos econômicos não declarados.
As conclusões mencionadas no relatório, contudo, permanecem no campo das hipóteses investigativas e não demonstram, até o momento, que Flávio Bolsonaro fosse proprietário da conta ou sócio oculto da Alcazar Holdings.
Em meio à disputa presidencial, o caso coloca sob escrutínio as relações empresariais e financeiras do candidato do PL, enquanto sua defesa rejeita qualquer irregularidade e questiona a divulgação dos documentos.
Redação Brasil 247
